ABCD, OS DONOS DA TERRA, ENTRE OUTROS

Os pilares invisíveis do sistema alimentar mundial

Há empresas cujo poder se mede pela notoriedade. E há empresas cujo poder se mede pelo silêncio. ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus pertencem a este segundo grupo. A maioria das pessoas nunca ouviu falar delas. E, no entanto, o mundo come porque elas existem — ou, mais precisamente, porque elas controlam o circuito.

Estas quatro empresas, frequentemente designadas como as ABCD do comércio agrícola, não vendem alimentos ao consumidor final. Não aparecem nas prateleiras, não constroem marcas emocionais, não contam histórias. O seu poder é mais profundo: controlam o movimento global do alimento.


O poder do fluxo

Ao contrário dos grandes proprietários fundiários do passado, estas empresas não precisam de possuir vastas extensões de terra. O seu domínio exerce-se através de infraestruturas estratégicas:

  • silos e armazéns
  • portos e terminais
  • navios e rotas marítimas
  • redes logísticas continentais
  • contratos de longo prazo

Quem controla o armazenamento controla o tempo.
Quem controla o tempo controla o preço.

As ABCD compram quando há excesso e o preço cai. Armazenam quando o mercado hesita. Vendem quando a escassez se instala. Não criam crises — capitalizam-nas.


Informação: o verdadeiro ativo

Estas empresas operam simultaneamente em dois mundos:

  • o mundo físico das colheitas, stocks e transportes
  • o mundo financeiro dos mercados, derivados e instrumentos de cobertura

Sabem antes de muitos Estados:

  • onde a colheita falhou
  • onde a seca se aproxima
  • que rota será interrompida
  • quando o preço vai oscilar

A informação não é acessória. É vantagem competitiva absoluta.

Num sistema global volátil, quem sabe primeiro ganha sempre.


O agricultor perante o gigante

Para milhões de agricultores em todo o mundo, estas empresas são o comprador final. Isso cria uma relação estruturalmente desigual.

O agricultor:

  • assume o risco climático
  • investe antes de saber o preço
  • vende num mercado que não controla

A empresa:

  • diversifica geografias
  • cobre riscos financeiramente
  • ajusta fluxos com rapidez

Quando o preço cai, o agricultor perde rendimento.
Quando sobe, muitas vezes já vendeu.

A assimetria não é ocasional. É estrutural.


A neutralidade que não existe

O discurso dominante apresenta estas empresas como intermediárias neutras, essenciais para ligar produtores e consumidores num mundo globalizado.

Mas decidir:

  • onde comprar
  • quando comprar
  • a que preço
  • com que critérios

é exercer poder.

Essas decisões moldam:

  • monoculturas
  • uso do solo
  • dependência de exportações
  • abandono de produções locais

A neutralidade é uma narrativa conveniente.
Na prática, estas empresas desenham o sistema.


Alimento e finança: uma fusão perigosa

Uma das dimensões mais sensíveis do poder das ABCD é a fusão entre alimento físico e finança.

Estas empresas:

  • operam nos mercados futuros
  • utilizam instrumentos financeiros complexos
  • antecipam e exploram volatilidade

Quando há instabilidade, não há necessariamente prejuízo. Muitas vezes há oportunidade.

A fome não aparece nos balanços.
Mas a volatilidade aparece.


Portugal na engrenagem global

Portugal não é grande produtor de commodities globais como soja ou milho. Mas está profundamente integrado neste sistema:

  • importa cereais
  • depende de rações para a pecuária
  • sofre impactos diretos da volatilidade internacional

Mesmo sem presença física visível destas empresas no território, os seus preços definem:

  • custos de produção
  • viabilidade económica de explorações
  • preço final do alimento

A soberania alimentar de países pequenos é frágil num sistema desenhado para gigantes.


Eficiência contra resiliência

O principal argumento a favor destas empresas é a eficiência. Movimentam volumes impossíveis para sistemas locais. Garantem abastecimento contínuo.

Mas essa eficiência tem custos:

  • concentração extrema
  • fragilidade sistémica
  • dependência de poucos nós logísticos

Num mundo marcado por crises climáticas, conflitos e instabilidade política, a centralização deixa de ser vantagem e torna-se risco.


Fecho do capítulo

ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus não são exceções. São a expressão máxima de um sistema que escolheu o fluxo sobre o lugar, o movimento sobre a relação, o mercado sobre o território.

Enquanto poucas empresas controlarem a circulação global do alimento, a terra continuará subordinada a decisões distantes.

Porque quem controla o circuito não precisa de possuir a terra.

Já é dono do seu destino.

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