Sabores que contam histórias
Falar de gastronomia é, muitas vezes, falar de prazer, identidade e memória. Mas por detrás de muitos pratos que hoje celebramos como “tradicionais” ou “típicos” escondem-se histórias duras, marcadas por desigualdade, violência e exploração. A relação entre escravidão e gastronomia na História é profunda, complexa e, durante muito tempo, silenciada.
A comida não nasce apenas de ingredientes; nasce de contextos sociais, económicos e políticos. E, em grande parte do mundo, esses contextos incluíram a escravidão.
A cozinha como espaço de dominação… e de resistência
Durante séculos, pessoas escravizadas estiveram no centro dos sistemas alimentares coloniais. Trabalhavam nos campos, nas plantações, nos engenhos e nas cozinhas. Produziam, preparavam e serviam alimentos que raramente lhes pertenciam.
Na América, em África e no espaço atlântico, a escravidão moldou o que se plantava, como se cozinhava e quem comia o quê. Produtos como o açúcar, o café, o cacau, o arroz ou o tabaco tornaram-se pilares da economia global à custa de trabalho forçado. Estes alimentos, hoje tão banais, carregam uma herança de sofrimento.
Mas a cozinha não foi apenas um lugar de opressão. Foi também um espaço de resistência cultural. Pessoas escravizadas trouxeram consigo saberes agrícolas, técnicas culinárias, formas de temperar e de transformar ingredientes pobres em refeições nutritivas. Cozinhar tornou-se uma forma de preservar identidade, memória e humanidade num sistema que as negava.

Ingredientes da diáspora africana
Muitos elementos centrais das cozinhas do Brasil, Caraíbas, sul dos Estados Unidos e até de partes da Europa têm raízes africanas. O uso do dendê, do inhame, do quiabo, do feijão-frade, bem como técnicas como a fritura profunda ou a cozedura lenta, foram transmitidos por africanos escravizados e seus descendentes.
Estes saberes não foram reconhecidos durante séculos. Pelo contrário, foram apropriados, adaptados e, muitas vezes, “embranquecidos” nos discursos oficiais da gastronomia. A comida era celebrada; quem a criou, esquecido.
Portugal, império e mesa
No contexto português, a relação entre escravidão e alimentação é igualmente relevante. Portugal foi um dos principais actores do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, e isso teve impacto directo na mesa.
O açúcar da Madeira e depois do Brasil, o arroz, as especiarias, o uso intensivo de ovos e doces conventuais — tudo isto se desenvolve num império sustentado pela exploração colonial. Em Lisboa, no século XVI, a presença africana era visível não só nas ruas, mas também nas cozinhas domésticas e institucionais.
Ainda hoje, pratos e hábitos alimentares portugueses reflectem esta história global, embora raramente se faça essa ligação de forma explícita.
Comida pobre, criatividade rica
Um aspecto central desta história é a chamada “cozinha de sobrevivência”. Pessoas escravizadas recebiam restos, partes menos valorizadas dos animais e ingredientes de baixo custo. Daí nasceram pratos que hoje são considerados património cultural: feijoadas, guisados, caldos espessos, frituras.
A criatividade forçada pela escassez gerou soluções culinárias engenhosas. No entanto, é importante não romantizar esta realidade. Estes pratos não nasceram de escolha livre, mas de necessidade extrema.

Memória, reconhecimento e responsabilidade
Reflectir sobre escravidão e gastronomia é também um exercício de responsabilidade histórica. Quem conta as histórias da comida? Quem recebe crédito? Que vozes continuam ausentes?
Nos últimos anos, chefs, historiadores e activistas têm vindo a recuperar estas narrativas, valorizando o contributo de comunidades negras e escravizadas para a cultura alimentar global. Este movimento não pretende “culpar” a comida, mas contextualizá-la, devolvendo-lhe profundidade e verdade.
Comer é um acto quotidiano, mas também político. Reconhecer a história por trás dos pratos que consumimos é um passo importante para uma relação mais consciente com o passado e com o presente.
Conclusão: sabores com consciência
A gastronomia é um arquivo vivo da História. Cada receita transporta marcas de migração, dominação, resistência e adaptação. Ignorar a ligação entre escravidão e comida é perder uma parte essencial dessa narrativa.
Falar deste tema não retira prazer à comida; acrescenta-lhe significado. Obriga-nos a olhar para o prato com outros olhos e a reconhecer que muitos dos sabores que hoje celebramos nasceram em contextos de profunda injustiça.
Talvez, ao fazê-lo, possamos transformar a memória em reconhecimento — e o reconhecimento em justiça simbólica.


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